segunda-feira, 2 de julho de 2012

Dandara III


Quando, então, vestiu a camisa que lhe fora oferecida Dandara parecia uma criança nas roupas de seu pai. As mangas sobravam-lhe pelos dedos, era comprida e larga e muito confortável.
Ela tentava lembrar se suas roupas, lembrar do que vestia e porque se despira: não lembrava. Era como se ela tivesse surgido, apenas surgido, e esse pensamento a confundia, tudo a deixava confusa e ao mesmo tempo tudo era tão excitante.
 Se deixava levar por aquele garoto que parecia conhecer tudo a sua volta. Vez por outra ele se virava para ela oferecendo a mão para que ela melhor se apoiasse. Ele num era exatamente bonito, mas era um rapaz com formas definidas, braços fortes, uma cor mais dourada de quem habitualmente se expõe ao sol. Não tinha as feições muito másculas ou adultas, mas já não era uma criança. Tinha um porte altivo e ao mesmo tempo simples o que lhe causava um aspecto, no mínimo, curioso.
Caminhavam em direção à mata cerrada, quando pararam em frente a um muro de árvores e cipós emaranhados, que ela julgou ser intransponível. Ele ficou em silencio alguns instantes, olhou-a nos olhos e com um sinal delicado lhe fechou as pálpebras. Passados alguns segundos, ele a puxou pela mão e ela pode ver um cenário fantástico, paradisíaco, já não estavam frente ao muro vivo e sim em um jardim belíssimo, com flores de várias espécies, com várias árvores frutíferas. Ela não entendia o porquê, mas, se sentia completamente familiarizada ao lugar.

Andrei sabia que dentro de pouco tempo ela se lembraria de seu lugar, e instintivamente agiria como lhe convinha. Ele se sentia bem em vê-la tão inocente e infantil, sabia que era transitório, enquanto ela não lembrava a que veio, sentia até um prazer oculto de ter sido escolhido como escolta dela.

O coração do rapaz pulsava numa excitação violenta, que tentava a todo custo disfarçar e ocultar os sinais. Pouco falava, geralmente se continha em acompanhá-la na direção que ela escolhesse. Sabia que ali nada poderia alcançá-los e tampouco os ferir.

Dandara sentiu um profundo cansaço e sentou-se na grama fofa. Andrei continuou em pé ao seu lado, em posição de vigília, quando ela lhe tocou os dedos e os puxou pra que ele também se sentasse, ele obedeceu e se posicionou ao seu lado.

Então, ela lhe segurou o rosto e olhou fixamente seus olhos, e soube tudo aquilo que ele estava pensando. Pela primeira vez ela teve a consciência de quem era, ainda que ele tivesse tentado resistir à leitura mental, todos os seus pensamentos haviam sido lidos, todos os seus desejos revelados e os seus medos foram dissipados.

Ele sabia que não poderia esconder-lhe nada, e sabia que nada mais havia para ser escondido, mas, mesmo assim não enrubesceu. Ele havia sido escolhido e treinado durante muito tempo para esse momento, e ainda que estivesse ansioso não temia mais seu destino. Sentiu as mãos da moça o empurrarem para que se deitasse, ele apenas obedeceu e ela deitou-se sobre seu peito.

Muitos minutos de silencio se fizeram, quando ela finalmente disse:

- Por que você aceitou esse destino? Parece tão pequeno.
Suspirando ele respondeu:

- Talvez seja pequeno para os outros, mas é imenso para mim.

Ela sorriu e continuou:

- Fico feliz que diga isso, apesar de sentir a inquietude do seu coração. Repare bem nas coisas ao seu redor, observe que tudo tem um propósito, essas imensas árvores frondosas possuem raízes que não aparecem, mas que sem elas seria impossível que essas plantas pudessem se manter eretas e corpulentas.

Diante do silencio dele, ela continuou:

- Não há trabalho que se sobressaia a outro, você poderia ter pena das raízes por nunca serem vistas, mas elas estão ali fazendo seu trabalho, colhendo os nutrientes, tão perto de Gaia, escondidas desse mundo. Enquanto o tronco e as folhas, por sua vez, aparecem exuberantes, mas possuem a tarefa de proteger a seiva, de colher a luz e estão sujeitas aos ventos, aos fogos, ao calor e ao frio.

O seu trabalho, querido, é como o das raízes e tão importante quanto. Não se sinta diminuído por não ser tronco ou folha. Sinta-se orgulhoso por saber que ambos precisam de você e sê responsável, por você também depende deles.

Haverá tempos em que eu não serei branda, que minha ira dominara todas as minhas forças, e somente você poderá me deter. Apenas adivirto-lhe que se um dia fizer, que pese bem os motivos, pois a justiça deve ser feita e quem protege o imprudente toma pra si o castigo.

Andrei corou e disse:

- Senhora, não...

E foi interrompido por ela:

- Não diga que não o fará, apenas entenda que o aviso é dado a todos. A ira só é desferida aos merecedores e ainda que tarde não há de falhar.

O suor frio subiu pela espinha de Andrei, e ele se sentiu uma criança indefesa.
Dandara então riu, e riu tão abertamente, gargalhou.... e então uma sensação de felicidade percorreu o corpo do rapaz e ele pensou que nada valeria mais que esse sentimento.
....


Sorriso da noite

As vezes parece que a noite tem o intuito de me seduzir...
Revela sensações adormecidas, revira o passado com reflexões confusas, aguça os sentimentos ocultos.

De tempos em tempo parece que a lua me sorri um sorriso tímido e solitário me chamando (quase intimando) a sair. E então sob os raios da lua me entrego à noite como um lobo solitário... apenas eu e a lua... Sento-me na relva úmida e converso longamente comigo mesma.

Vez por outra um vento frio me acaricia o rosto, vez por outra um sinal se faz. E nessa tranquilidade infinita, no quintal, banhada pela luz refletida, encontro tempo e paz.

São pequenas e maravilhosas sensações que tornam o nada fantástico e fascinante. O culto à Gaia, a reverência à natureza. O corpo todo sente a força pulsar e num estado de frenesi descontrolado a pele se arrepia, a pele se torna sensível, a libido se torna latente e a magia se projeta numa satisfação quase divina de poder sentir e viver.

Quando o sorriso da noite é visto e sentido, não há mais ponto de retorno, só tem uma direção e um sentido, a entrega deve ser total e a fúria do momento dilacera todo elemento menos iluminado, gerando uma conexão sublime entre o ser e o divino. Essa conexão é sentida, transmitida e vivida por algum tempo, quando então deve ser refeito o contato com a Mãe.

O sorriso da noite irradia a força, a divindade, a humanidade de cada um, num momento mágico, fantástico, irresistível e precioso.

domingo, 1 de julho de 2012

Acaso há caso???

Acaso, ocasional, por ocasião de, inesperdado, fortuido, descomprometido....
Deu-se o caso por algum motivo, por ocasião de evento algum, encontramo-nos novamente.
E foi mágico, foi lindo, foi inesperado e imprevisto. De uma hora pra outra antigos pensamentos bateram à porta do consciente... Pensar em tudo aquilo que fomos, que somos, que poderíamos ter sido e nos deparar com a certeza de que somos exatemente o que devíamos ter sido.

Engraçado como as coisas acontecem na nossa vida, coisas ruins que acabam criando sentimentos tão sublimes ou coisas boas que acabam por causar transtornos. Quantas vezes a gente pensa que está tudo acabado, sem saída, sem caminho e de repente uma trilha aparece? Quantas vezes a gente se desespera com algo que passado o momento a gente não consegue entender o motivo do desespero???

Muitas vezes sinto a sufocante sensação de que estou sozinha, esquecida no passado daqueles que tanto amo e então como um sonho um reencontro se faz e o sentimento é revelado. Quando o acaso revela o caso.

Eu sinto que as pessoas tem momentos de reflexão que não chegam a conclusão alguma. Sinto que muitas vezes a gente perde tempo demais com questionamentos bobos e inseguranças inúteis, mas acho que é isso que nos torna HUMANOS. O fato de pensar, questionar, estar insatisfeito com algo. Porque a partir dessa insatisfação é que a gente evolui, a gente cria metas, corrige. Quando a gente tem que agir e criar caso.

E tem aqueles momentos em que nada parece dar certo e que não há nada a ser feito senão deixar que o acaso cuide do caso....

quinta-feira, 28 de junho de 2012

....


Eu sinto saudades....
 
Sinto saudades de todo aquele sentimento que um dia eu senti...
De toda aquela vontade e todo aquele desejo que em algum lugar, em algum momento eu perdi.
 
Sinto saudades de me sentir a pessoa mais importante na vida de alguém (embora de fato eu nunca tenha sido)
Sinto saudades de saber que todos aqueles segredos seriam confiados apenas à mim e a mais ninguém....
Sinto saudades de te contar tudo quanto me passava pela cabeça...
De me sentir amparada e confiada...
 
Talvez seja besteirinha de mulher ou de "bruxa velha"... sei lá....
Tá me doendo muito ser pessimista.....
 
Por algum motivo, sinto um grande desconforto quando estou com você... e uma imensa saudade quando não estou...
 
Como se eu estivesse com um constante medo de ter que me afastar de você de novo, e definitivamente....

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Ah se o mundo me pudesse ouvir....

Iria falar da palavra que fere, do descaso que abala, da ignorancia que enoja....
Iria criticar o erro e mal dizer o preconceito...

Mas, iria confessar o amor, iria dar importancia ao sorriso, ao abraço, ao amigo....
Se o mundo todo me pudesse ouvir, ia cantar a canção da américa, ia chamar todos para uma roda de samba, uma viagem, uma partida de gamão.
Se o mundo todo me pudesse ouvir eu diria que amar é a melhor solução.
Ia defender a cura da alma com risadas, propor a tolerancia e a humildade...
Se o mundo todo me pudesse ouvir lembraria que a mensagem divina é unica, verdadeira e real...
Se ao menos os meus pudessem ouvir ia lembra-los de que ainda que os ame, eu tenho meus limites.
Que ainda que eu os aceite e que ainda que eu os compreenda não significa que eu aprovo suas escolhas e atitudes....
Ainda que poucos me entendessem, provavelmente me sentiria menos sozinha nesse mundão.....

quarta-feira, 13 de junho de 2012

no sense!

Há tempos venho tentando libertar as palavras que invadem meus pensamentos.
Como se houvesse uma represa que as segurassem, as mensagens se acumulam.
Como se faltassem vocábulos que expressassem, que as traduzissem...
Há tempos em que as palavras se esquivam, some o significado, fica o sentido: sentindo....

E ainda que ensaie, que elabore, que reflita
Não há maneira que se transmita.
É como representar o nada
Ou quantificar o infinito....
É o divagar sobre o óbvio
e descrever o vazio
É chover no molhado
Ainda que sabendo que nunca foi dito,
Pensado ou expresso aquilo que tenho comigo...

É que as palavras traem, as impressões se confundem
E fica apenas a sensação de nada dito...
Ou do dito sem sentido a respeito do que não faz sentido.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Por onde andei???

Por onde andei enquanto você me enganava???
Aquele sentimento de ter sido feito de bobo, ou de ser passado pra trás.
Pensar nas coisas em que acreditei e por quanto tempo acreditei.
Pensar na forma com que eu via as coisas: pareciam tão simples, eu entendia tão completamente.

Saudade da inocência perdida, de quando eu simplesmente acreditava.
Porque não tem nada mais gostoso do que acreditar, sem duvidas, sem segundas intenções, sem maldade. Acreditar naquilo que se vê ou se ouve. Apenas acreditar, sem agregar juízo de valor, sem sentimentos de culpa, sem prechas, sem falhas, sem medos.

Por algum motivo em algum lugar perdi a capacidade de ser simples, ser somente o que vê ou o que sente... Era tão melhor quando ainda havia uma inocência dominante no meu ser. Quando acreditava nas pessoas e nos fatos sem questionar motivos ou intenções.

Por onde andei enquanto você me dominava? Insegurança, inconstância, medo... onde eu estava quando vocês me encontraram? e de que forma se instalaram em minha vida???

É inacreditável como experiencias se acumulam na vida de alguém, ainda que fossem somente as boas, ou que os pesos fossem iguais, mas parece que em um determinado ponto da vida a gente passa a dar muito mais valor ao que não é legal.

Quando pequeno tudo parece novo, os perigos são imensos, pense: como é perigoso uma criança rolar na cama! É lindo, é fofo, faz parte, mas a criança não avalia o quão perigoso pode ser uma queda quando se tem os ossos tão delicados. Depois, se pararmos pra pensar, a coisa mais interessante: andar!!! Olha isso foi feito pra não dar certo, a gente desequilibra cai.... mas a sensação ou a curiosidade é tanta que a gente anda! E toda vez que tenta é como se não houvesse medo.

Acho que é por isso que a gente aprende a andar quando crianças, por que se tentássemos depois de "velhos" provavelmente desistiríamos. Porque pensaríamos nas vezes que caímos, nas vezes que tentamos e nos perigos que correríamos....

Mas, sinceramente, hoje eu me pergunto: por onde andei quando a minha criança me esquecia???
Seria tão melhor se eu voltasse a caminhar pensando somente nas sensações causadas, nas distancias a serem percorridas e esquecesse ou não pensasse nos tombos, nas quedas, nas histórias tristes que me bloquearam o caminho.

Será que evoluir é tornar-se adulto como se ainda fosse criança? ou manter o espirito infantil e feliz?
Não sei... só sei que eu não faço a mínima idéia de por onde eu andei enquanto meu coração envelhecia.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Boemia, aqui me tens de recesso!


Quando a gente é baladeiro de plantão, a gente acaba conhecendo umas figurinhas inusitadas. Tem aquela pessoa super divertida, tem aquela pessimista, tem a pegadora e a quetinha e tem sempre as come quieto. Mas, eventualmente aparecem aquelas que querem tirar casquinha dos teus contatos. Que estão ali para aparecer, só que acabam sendo visadas de mais. E isso é ruim inclusive para a imagem da gente.

Quando se é baladeira de plantão, a gente aprende mil e uma artimanhas para fazer tudo que quer sem que todos os outros frequentadores dos "points" saibam das histórias, não que eles tenham algo a ver com a sua vida. Mas, via de regra, vida exposta é dor de cabeça. Quando vira fofoca, as histórias crescem os méritos diminuem..... Tem pessoas que se saem muito bem no cargo, tem pessoas que estragam todo o movimento da galera e tem aqueles que se estragam com o tempo, não renovam, não desenvolvem não percebem que existe a hora de mudar de ares aos poucos aquela pessoa vai ficando meio fora da galera.

Quando se é baladeiro, precisamos de preparo psicologico e preparo fisico...muita disposição e criatividade...
Dificil mesmo é a transição quando se decide aposentar ou suspender as baladas....mas, a gente se acostuma, e depois pra voltar é tenso... eu vou voltar... não sei quando,mas um dia eu volto...

Num feriado....tudo que se quer é: TEMPO

E chega um tempo em que as coisas acontecem numa velocidade tão grande que o tempo parece que vai sufocar você... ele junta tudo junto e na mesma hora, no mesmo dia e locais absolutamente longe um do outro.

Então você decide que vai parar, que só por hoje vai ficar em casa e descansar....
Mas, eis que surgem mil imprevistos e você acaba na rua outra vez....

TEMPO, TEMPO, TEMPO MANO VELHO!!!!! Seja legal e me deixe pelo menos hoje concluir minhas tarefas...


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Momentos

Como é bom lembrar de momentos felizes....
Como é bom saber que aquela linda história aconteceu e foi perfeita, mágica, divertida, completa.
Tantos sonhos, tantos risos, tantas fantasias....

É certo que a realidade agora é outra, a vida seguiu seu rumo e não parou para que pudessemos nos ajustar juntos, nos ajustamos separados.... Mas, nos ajustamos mesmo???

Pensar em tudo que passamos, nas experiencias que tivemos, pensar que nos afastamos e que ainda assim um pedacinho da memória ainda nos une num passado que um dia ficará desbodado, as fotografias meio borradas. Mas ainda assim estará ali como um pedaço da história que construimos.

As lembranças, felizes, que vivemos vão se unindo numa imensa colcha de retalhos que nos esquenta no frio. Quando a tristeza bate são esses momentos que aliviam. E a promessa de tantos outros momentos dão a esperança para continuar cosendo essa colcha de retalhos.